No artigo sobre a proposta vencedora para o novo museu do Côa, talvez mais do que a critica à obsessão do arquitecto português em validar as suas propostas através da recorrente justificação do lugar, dirigia-se, a critica, à falta de sinceridade que antecede o texto justificativo, a meu ver, ferramenta poderosa para dar a conhecer um determinado conceito ou ideia.
O nosso provincianismo critico, embalado pelo cada vez mais gasto leque de exemplos que a arquitectura portuguesa vai oferecendo à discussão, e, eternamente apoiado pela extinta escola do Porto, acabaram por produzir um fenómeno que teima em retardar a necessária mudança de mentalidades no que ao habitar em Portugal diz respeito. Em discussão recente, o projecto de Carlos Sant’Ana e Isabella Rusconi com Inês Melo e Ricardo Sousa desenvolvido no âmbito da edição de 2005 da Experimenta Design, sob o tema de “Uma Casa Portuguesa”, exercício pertinente de habitação, talvez mais conceptual do que objectivamente prático, acaba por ser algures apelidado de “pouco português”

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As bases da nossa arquitectura, assentam em pressupostos sólidos pós-modernistas que foram brilhantemente cultivados por um grupo de jovens arquitectos, mais a norte do que a sul, e que se reflectiram em excelência desde o final dos anos 90 até este inicio de milénio, época em que, o pensamento se abre, o planeta atinge finalmente a escala global da sua dimensão, e a mistura cultural se redescobre, 400 anos depois de nós, portugueses, termos sido pioneiros nas plataformas de relacionamento entre os povos do mundo.
No caso da “Casa Portuguesa”, o fenómeno de recusa na aceitação da ideia é meramente preconceituoso, porque o projecto em si, mais sincero não poderia ser. Da imagem ao desenho, e daí até ao texto que o acompanha, onde se reconhece como momento único e particular inserido num âmbito de desenvolvimento pensado a uma escala verdadeiramente global, onde o ponto de chegada de um assunto se transforma imediatamente no ponto de partida de um outro, numa procura continua da sociedade que se reflecte, finalmente, na velocidade a que vivemos. Paradoxalmente, ou não, o saudosismo não deixa de nos acompanhar, e a necessidade em compensar a evolução atinge contraponto nos modos de viver, em derradeira análise, no modo de habitar. Aí se entende o quão preconceituosos somos, mas, mais grave do que isso, o quão dispostos estamos em defender a lenda da arquitectura portuguesa, talvez até perdermos a razão.
Os contributos de Raul Lino, Teutónio Pereira, Álvaro Siza ou Gonçalo Byrne, não se perdem nem se desconsideram com esta reinterpretação dos canones modernos, muito pelo contrário, haverá mais carga de portucalidade na proposta de Carlos Sant’Ana e Isabella Rusconi, do que em grande parte das repetidas obras intelectuais arquitectónicas cujo surgimento, em tom branco, estéril e vazio, se vai assistindo com um convencido assentimento, numa espécie de satisfação absurda pela repetição.

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Notas de autor:

“A história repete-se. Para cada acção existe uma reacção, ocasionalmente uma resposta rápida, a maioria das vezes excessivamente demorada. E esta é a nossa situação actual. Vivemos de outro modo mas habitamos do mesmo. Continuamos a assentar o nosso conceito de construção num modelo neo-burguês que, comprovadamente, se encontra ultrapassado. Que procuramos? Ninguém sabe ao certo, pois dificilmente encontraremos uma resposta única e universal. Cada ponto de partida leva a um diferente ponto de chegada, o que torna a heterogeneidade um dos factores mais importantes da criação contemporânea.
A sociedade procura novos modelos, novas referências que tenham a capacidade de nos fazer sonhar com um futuro melhor. Uma viragem em direcção ao igualitarismo e um regresso à informalização como contra-tendência social. De que modo a casa pode ser o espelho desta nova alma? Procurando um entendimento desta nova condição como ponto de partida para a concepção espacial da “nova casa”. “É uma Casa Portuguesa? com certeza…” ”
Carlos Sant’Ana e Isabella Rusconi com Inês Melo e Ricardo Sousa

1 Comment for “ Casa Portuguesa – S’A Arquitectos ”

  1. [...] do " preto" que me assusta, a noo do "no branco!". De qualquer forma sau um artigo sobre isto no Aspirina. __________________ [ponto] Com [...]

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